
Desde criança o nome Caligari povoa meu imaginário. Lembro-me de assistir ao filme “O Gabinete do Dr. Caligari”, ficção de terror de 1919 (Alemanha/ Direção de Robert Wiene), uma das maiores obras do expressionismo alemão e me sentir fascinado. Luz e sombras e ângulos inusitados criavam um clima denso e misterioso, inesquecível aos olhos e à mente de uma criança. Mais tarde, nos anos 80, “O Gabinete do Dr. Caligari” voltou a ser muito comentado entre os cinéfilos de plantão.
Mas 2009 me trouxe, entre tantos outras novidades, um novo Caligari. Agora em sua forma italiana, Calligaris. Contardo Calligaris, psicanalista, psicoterapeuta e ensaísta, italiano de nascimento, formado na Suíça e na França e radicado no Brasil há 20 anos.
Tudo começou com o Café Filosófico (TV Cultura, domingo, 22h), onde ele é um dos palestrantes. Me intrigava sua forma de tratar temas extremante complexos e nada coloquiais. Psicanalista, abordava filosofia, sociologia e outros bichos de casco de uma maneira profunda, sedutora e simples. Sem ser medíocre e sem incorrer em auto-ajuda babaca.
O segundo passo foi saber que ele era o autor da peça “O Homem de Tarja Preta” (em cartaz em São Paulo até 31 de julho). A história se passa em uma única noite, onde um homem casado, pai de dois filhos, sofrendo de insônia, navega pela internet, em salas de bate papo, revelando seus próprios sonhos de infância, fantasias sexuais, e o sentido e valor que atribui à vida, ao casamento e à paternidade.
Quem é esse intelectual tão diverso e genial? Em meio a essas perguntas e nos últimos dias que passei em São Paulo dei de cara em uma livraria com mais uma de suas facetas. A de romancista, com o livro “O Conto do Amor”. Comprei de imediato, sem sequer ler a orelha ou a contra-capa. No vôo de volta, devorei o romance de 124 páginas em menos de duas horas. Encantando e hipnotizado pelas palavras, fui grifando frases que gostava, como que para não esquecê-las, ou talvez por uma vontade enorme de torná-las verdade em minha existência. Ao final, e sem nenhuma intenção, as frases soltas e distantes formaram uma declaração de amor:
“Entrei em seu corpo e senti como se tivesse, enfim, chegado em casa.
Senti, mais do que nunca, aquela sensação de que eu tinha voltado para casa e que tudo era simples, até meu desejo.
Quanto estou com você tudo me parece claro e natural, simples e bonito. Agora, de fato eu não sou assim.
Sou complicado sem necessidade, pomposo, falsamente elegante e, sobretudo, atormentado. A Roma papal barroca, feita de desejos inconfessáveis, repetidos compulsivamente, culpados e por isso mesmo praticados até a náusea. A Roma de um poder que goza sem limites e com um falso pudor – que é a pior maneira de gozar.
Queria lhe dizer que eu venho de Roma e que você é a minha Florença (a alusão ao claro e natural, simples e bonito).”
Sem querer, Dr. Calligaris me fez declarar amor, dizendo talvez exatamente aquilo que queria dizer. E mais, me fez ter vontade de voltar a escrever.
Mas 2009 me trouxe, entre tantos outras novidades, um novo Caligari. Agora em sua forma italiana, Calligaris. Contardo Calligaris, psicanalista, psicoterapeuta e ensaísta, italiano de nascimento, formado na Suíça e na França e radicado no Brasil há 20 anos.
Tudo começou com o Café Filosófico (TV Cultura, domingo, 22h), onde ele é um dos palestrantes. Me intrigava sua forma de tratar temas extremante complexos e nada coloquiais. Psicanalista, abordava filosofia, sociologia e outros bichos de casco de uma maneira profunda, sedutora e simples. Sem ser medíocre e sem incorrer em auto-ajuda babaca.
O segundo passo foi saber que ele era o autor da peça “O Homem de Tarja Preta” (em cartaz em São Paulo até 31 de julho). A história se passa em uma única noite, onde um homem casado, pai de dois filhos, sofrendo de insônia, navega pela internet, em salas de bate papo, revelando seus próprios sonhos de infância, fantasias sexuais, e o sentido e valor que atribui à vida, ao casamento e à paternidade.
Quem é esse intelectual tão diverso e genial? Em meio a essas perguntas e nos últimos dias que passei em São Paulo dei de cara em uma livraria com mais uma de suas facetas. A de romancista, com o livro “O Conto do Amor”. Comprei de imediato, sem sequer ler a orelha ou a contra-capa. No vôo de volta, devorei o romance de 124 páginas em menos de duas horas. Encantando e hipnotizado pelas palavras, fui grifando frases que gostava, como que para não esquecê-las, ou talvez por uma vontade enorme de torná-las verdade em minha existência. Ao final, e sem nenhuma intenção, as frases soltas e distantes formaram uma declaração de amor:
“Entrei em seu corpo e senti como se tivesse, enfim, chegado em casa.
Senti, mais do que nunca, aquela sensação de que eu tinha voltado para casa e que tudo era simples, até meu desejo.
Quanto estou com você tudo me parece claro e natural, simples e bonito. Agora, de fato eu não sou assim.
Sou complicado sem necessidade, pomposo, falsamente elegante e, sobretudo, atormentado. A Roma papal barroca, feita de desejos inconfessáveis, repetidos compulsivamente, culpados e por isso mesmo praticados até a náusea. A Roma de um poder que goza sem limites e com um falso pudor – que é a pior maneira de gozar.
Queria lhe dizer que eu venho de Roma e que você é a minha Florença (a alusão ao claro e natural, simples e bonito).”
Sem querer, Dr. Calligaris me fez declarar amor, dizendo talvez exatamente aquilo que queria dizer. E mais, me fez ter vontade de voltar a escrever.
Muito bonito, meu caro!
ResponderExcluirDe uma sensibilide brutal!