quarta-feira, 22 de julho de 2009

Os anos 80 e nossa modernidade tardia!

Se o final dos anos 60 e o início dos anos 70 foram para boa parte do hemisfério norte a ruptura com os padrões de comportamento estabelecidos, isso chega ao Brasil mais tarde.
Enquanto na França o maio de 68 discutia o sistema educacional, com revolta dos estudantes em todo o país, culminando na marcha sob Paris, e os Estados Unidos assistiam ao Woodstock e à poesia coloquial de Bob Dylan, ao Flower Power e aos Panteras Negras, o Brasil sofria com regime de exceção democrática implantado com o Golpe Militar de 64.
Aqueles foram anos difíceis para o país. E o Ato Institucional nº 5 foi o golpe de misericórdia na liberdade de expressão. Se o mundo europeu e norte americano discutia o coletivo e a liberdade de ser individual, os brazucas foram amordaçados. Discutíamos a necessidade de justiça e de um mínimo de liberdade democrática e cidadã. Mas nunca discutíamos o indivíduo. Sequer havia espaço. Não era oportuno. Outra era a luta.
Tardiamente, vimos os anos 80 representarem aqui essa modernidade. A anistia política, as “Diretas Já” e todo um movimento de estética de massa marcaram para nós o início da discussão do indivíduo e suas liberdades e possibilidades. Tudo isso sob a ameaça arrasadora do HIV. O livro “Entradas e Bandeiras”, do hoje Deputado Fernando Gabeira, à época militante político recém-anistiado, já anunciava que as esquerdas brasileiras eram fascistas em relação à liberdade do indivíduo. Não tinham teses sobre essas questões. Estacionados na luta armada eles não viam o novo, embora o novo já tivesse vindo. O PCdoB ainda entronizava a Albânia como modelo comunista (um país que proibia, em sua constituição, que o cidadão possuísse animais de estimação - só para se ter um exemplo). E só para se ter uma referência atual, Tirana era a capital da Albânia (procure no Google notícias sobre a cidade e se depare com o caos).
Índios, padres, bichas, negros, mulheres e adolescentes - pra citar Caetano - não se enquandravam no perfil do exemplar cidadão proletariado, a quem as questões individuais eram secundárias, como que saídos de uma produção em série, bem medíocre. Neles os sonhos e desejos só cabiam ao coletivo.

Foi nos 80 que tudo começou. Dessa época, e representante desse movimento, “Narciso”, composição do Cazuza ainda no Barão Vermelho, mostra de forma brilhante essa inquietação.

Narciso (Cazuza)

Você que se cuide
E pare de me dar respostas prontas
Que você tem problemas, eu sei
São coisas da idade
São coisas da idade
Por isso é que você me imita
Desliga a razão da tomada
Desfila por toda cidade
Antecipando o fim

Quem você quer não diz nada
Vara a madrugada
Procurando por mim
Eu tenho tudo o que você precisa
E mais um pouco
Nós somos iguais
Na alma e no corpo

Você que se cuide
E pare de sair pela tangente
As drogas e os assuntos acabam sempre
Nesse frente a frente

Agora me enfrente
Como uma imagem no espelho
Nenhum bicho ou planta
Pode ousar assim

A verdade nua em pêlo:
Todo humano é santo
E pode amar, sim
E pode amar, sim

Eu tenho tudo o que você precisa
E mais um pouco
Nós somos iguais
Na alma e no corpo

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