
No princípio, só existem os poemas, os filmes, as canções e a lua cheia. Nada além é capaz de nos fazer senti-lo. Os versos, as imagens e as melodias nos transportam para um mundo novo, que parece só existir em sonhos, temperados pelo brilho da lua. Chegamos a ter saudade daquilo que não vivemos. Perseguimos uma utopia que parece nunca estará ao nosso alcance.
O tempo faz a roda girar. Conhecemos pessoas, vivemos, experimentamos, tentamos, mas ele não chegou. Uma vez - nos lembramos - parecia ser ele. Mas o tempo, grande mestre e companheiro, nos revelou ser apenas um fogo de palha. Muitos de nós desacreditamos que ele exista. Passamos a considerá-lo apenas sensual, genital, e pronto. Tornamo-nos práticos. Ele só existe assim: não era nada daquilo que diziam os livros, o cinema e a música.
Alguns passam até a evitá-lo: “- Esse negócio não existe não!” É coisa de doido, fantasia de mulheres românticas, frescura de mariquinhas. Não passa de uma justificativa à união e à procriação. Ou então uma conspiração contra a liberdade ao prazer carnal. Dizer “eu te amo” é bobagem, afirmação leviana para uma forma inventada de controle social.
Até que um dia, estejamos preparados, à sua procura, ou não, ele bate à porta! Sim, ele mesmo, em pessoa, ao vivo e a cores: o Amor. Tomamos até um susto. “-Mas ele não existe! E eu nem o chamei ou convidei! Como pode ser?” Não foi assim que planejamos: temos um tipo e um momento ideais, que em geral nunca correspondem. Duvidamos, negamos, mas caboco, pode confirmar: é ele. Ficamos então retraídos, estratégicos, estudando terreno, querendo saber como é que funciona. Será que não dava pra vir com manual de instruções? E numa progressão geométrica de ordem inversa, quanto mais o tememos, mais nos envolvemos. PQP, o negócio vai pegando. Tentamos não pensar a respeito, não dar muita bola. Nos damos até ao desfrute de ficar com outras pessoas, pra ver se é isso mesmo.
Fazemos de tudo para desmenti-lo, mas a grande prova é que as canções, sim aquele velho símbolo, passam a ter sentido. Não são mais uma utopia. Relaxamos e, como não há, graças a Deus, outro jeito, gozamos. E muitas, incontáveis vezes. Basta um telefonema, um sorriso, um roçar de pele. Ficamos assim um tempo, com os pés suspensos do chão e atestamos, até os mais hereges: o desgraçado existe!
Mas toda grande conquista sempre enfrenta desafios e é colocada, quase que todo santo dia, à prova. É um momento perigoso e decisivo. Se nos acomodamos, crentes de dominá-lo, a vaca pode ir pro brejo. E como vai. O comodismo é traduzido no gesto de não compartilhar, não cuidar, não renovar. Passamos a nos perdoar pequenas mentiras, a ter mais sono que o normal, a ir ao banheiro de porta aberta. Chega o dia em que perdemos o respeito! E quando agimos assim, ele faz as malas e vai embora. Resumo da ópera: você uma flor sem espinho e eu um espinho sem flor. Sobram apenas os retratos, este um novo símbolo, e as canções, que de utopia, ganham duas novas definições: passado e lembrança. Vai embora em termos, porque ainda ficamos impregnados com sua essência.
É, camaradas, e quem nunca passou por isso, tenha o máximo de cuidado: há de passar. Prefira sempre as canções e os pés fora do chão aos retratos e canções. Estes últimos são muito tristes e nos deixam um terrível sabor de derrota. Não são definitivos, porque podemos, com sorte, voltar a amar de novo alguém novo. Mas dói, vocês não sabem, ou talvez saibam, o quanto!
Estou falando assim porque sem Amor nada existe. O Amor é um troço absoluto. Ele constrói tudo. Casas, cidades, nações. E quer saber de uma outra coisa: tô falando nisso porque eu AMO, e pronto! Ah, essa maldita lua cheia lá fora...
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