sábado, 29 de agosto de 2009

Persona




Sempre me revolto quando alguém me considera óbvio ou previsível. Quando, por exemplo, chego a um lugar demonstrando alegria e, invariavelmente, surge alguém, com a profundidade de um pires de café, e pergunta: “Paquera nova? Quem é?”. Ou então quando estou abatido, seja lá qual for a razão, e aquele imbecil de plantão grita bem alto: “A farra foi boa, heim!?”.Meus motivos à felicidade ou à tristeza são tão diversos e pessoais, que nem eu mesmo sei, vez por outra, a razão desse ou daquele determinado estado de ânimo. E a lógica das situações não é matemática. Há dias em que minha satisfação é contida, intimista. Há outros em que minha melancolia surge dissimulada, falastrona.
Mas há pessoas que pretendem ter o poder da onisciência. Imagine-se narrando um fato a alguém. Contando os detalhes importantes, e qual foi o seu comportamento frente à situação. Agora se descubra sendo interrompido por uma terceira pessoa, bradando em alto e bom som: “Você? Reagindo dessa maneira? Duvi-d-o-dó! Conheço você. Aposto que você fez....” E se você retruca, para explicar sua atitude, o infeliz teima e se reveste de uma intensidade ainda maior, inclusive no volume da voz, para provar a você o que você fez. Sim, porque melhor que ninguém, ele sabe de tudo, lhe conhece como a palma da sua mão. Ahhh, pros diabos com essa gente...Tenho quase 45 anos e nem mesmo sei se me conheço bem. Como pode então um alguém, um qualquer, ou muitas vezes um ninguém, querer me conhecer? Ora, nem sempre me repito. Gosto de surpreender a mim mesmo.
Não violão, não vem não. Tenho meus dias de berimbau. E tenho meus dias de piano de calda. Tenho até, não raro, meus dias de alaúde com gaita. E eles não estão marcados na folhinha, como datas fixas no calendário da existência. E porque será que há sempre alguém que insiste em me adivinhar, jurando me conhecer? Isso me reduz a um nada imutável: fui, sou e serei eternamente assim, porque assim julgam me conhecer. E eles dizem que me conhecem. Mas é certo que se projetam em mim, nas suas expectativas cristalizadas de quem sou.
Não, não suporto que me tratem como um clichê, um label, um tipinho óbvio, previsível, como uma palavra cruzada de mediano nível de dificuldade. Sou complexo. E pronto, ponto, seguido de várias interrogações. Mas quase todo mundo é assim: um universo em movimento, capaz de mudar, de aprender, de avançar e, inclusive, de retroceder. E me pergunto: será que conheço alguém? Eu tento, mas não estou bem certo se posso dizer que CONHEÇO. Nessas ocasiões, prefiro perguntar. E, o que normalmente é mais difícil ainda, ouvir o que meu interlocutor tem a dizer. Então posso afirmar que, naquele momento, para aquela ocasião, eu o conheço. E os tergiversadores hão de dizer, empolados: “São apenas palavras; e o que está por traz de tudo isso?”. Bem, não conheço melhor maneira de expressão. Alguém conhece???
Tenho cautela, mas acredito no novo, na mudança. Não há nada melhor que um avanço para revigorar uma vida linear. Eu acredito.

2 comentários:

  1. Meu amado, para tudo... estou sem ar, sem chão, enfim compreendi oq muitas vezes acontecia comigo e não me permitia entender que estava de certa forma sendo violentada pela arrogancia humana. Preciso elaborar teu registro, gostaria de coloca-lo em um chip e na minha pele colar, para que quando precisasse de todas estas informações tivesse a maturidade e humildade de responder como o arteiro que lança para o infinito usar precisão das tuas palavras. Bjs. Carminha Lopes

    ResponderExcluir
  2. Meu jovem...

    Retrataste de forma "equilibrada" e perfeitamente correta, o que por vezes, respondo mesmo que intimamente, ao receber estas indagações dos "sábios" de plantão, conhecedores de tudo e todos. Um profundo e libertador VAI TOMAR NO C... Para os "pré-tudo".

    Abraços.

    E pelo o q conheço de ti... esse texto é fruto de... kkkkkkkkkk... kkkkkkkkkk...
    Te conheço rapaz... kkkkkkkkkk.

    ResponderExcluir