
Andei revirando algumas coisas e encontrei um manuscrito meu, de 95 a 97. Uma ficção entitulada "Diários de Israel". Transcrevo alguns trechos, narrados pela personagem em primeira pessoa:
(...) por meses seguidos mantive um isolamento espontâneo, questionando o sentido da vida, da existência e sua destinação. Universo, infinito, eterno, início, meio e fim. Qual a verdade? Qual a essência? Qual a significação de tudo para o indivíduo? Qual o sentido do coletivo?
Cheguei a pensar que não sobreviveria sem a solução dessas questões, que assumiram de inesperado um caráter de essencial, responsáveis pela explicação e justificativa de eu "ser".
Por vezes esbarrei no desespero do nada, como se o amor, ao se fazer ausente, fosse o grande mistério que justifica e explica o ato da vida, em qualquer de seus planos. Sem ele, deus, pedra e planeta assumem o mesmo significado e se tornam indiferentes. Vivemos um intervalo de tempo onde muitas coisas são remotas: o trabalho, o sistema educacional, a aquisição de bens e serviços. Muitas vezes até o contato com outro ser. Mas o que pode substituir o absoluto de um afago? De um sorriso? Ou do olhar de um ser presente? O simples compartilhar de idéias numa conversa rotineira daqueles que dividem o mesmo espaço?
...
Voltei a compreender o processo do que é "ser", exitir. Há novamente uma sensação de plenitude, de "ser" sem questionamentos que as palavras não conseguem materializar. Eu sou e isso me basta. Algumas vezes saio, olho o verde das árvores acenando para o azul indescritível do céu e a felicidade brota. Um turbilhão de energia parece fluir do meu íntimo e afetar tudo ao meu redor, numa solidariedade mútua, eu, a rocha, a atmosfera, a planta, o pássaro, o outro ser humano que passa próximo ao horizonte.
Penso na cigarra, que tem por meta de sua existência cantar até explodir, integrando-se ao meio ambiente. Um ato de amor de maior extensão, dentro de sua limitação existêncial. O canto é a prioridade, a comunhão, num sentimento desinteressado, atravessando o existir da vida material para alcançar o existir de sua energia, perpetuada naquele momento e ultrapassando todas as suas possibilidades.
Seria o canto o espírito da cigarra?
Há a troca da integridade física de uma existência medíocre por algo que está além, uma possibilidade que está além e que a torna onipresente e participativa. Feliz....
Sinto-me cigarra!


