segunda-feira, 27 de julho de 2009

Fragmentos de meus escritos do passado!




Andei revirando algumas coisas e encontrei um manuscrito meu, de 95 a 97. Uma ficção entitulada "Diários de Israel". Transcrevo alguns trechos, narrados pela personagem em primeira pessoa:


(...) por meses seguidos mantive um isolamento espontâneo, questionando o sentido da vida, da existência e sua destinação. Universo, infinito, eterno, início, meio e fim. Qual a verdade? Qual a essência? Qual a significação de tudo para o indivíduo? Qual o sentido do coletivo?

Cheguei a pensar que não sobreviveria sem a solução dessas questões, que assumiram de inesperado um caráter de essencial, responsáveis pela explicação e justificativa de eu "ser".

Por vezes esbarrei no desespero do nada, como se o amor, ao se fazer ausente, fosse o grande mistério que justifica e explica o ato da vida, em qualquer de seus planos. Sem ele, deus, pedra e planeta assumem o mesmo significado e se tornam indiferentes. Vivemos um intervalo de tempo onde muitas coisas são remotas: o trabalho, o sistema educacional, a aquisição de bens e serviços. Muitas vezes até o contato com outro ser. Mas o que pode substituir o absoluto de um afago? De um sorriso? Ou do olhar de um ser presente? O simples compartilhar de idéias numa conversa rotineira daqueles que dividem o mesmo espaço?

...

Voltei a compreender o processo do que é "ser", exitir. Há novamente uma sensação de plenitude, de "ser" sem questionamentos que as palavras não conseguem materializar. Eu sou e isso me basta. Algumas vezes saio, olho o verde das árvores acenando para o azul indescritível do céu e a felicidade brota. Um turbilhão de energia parece fluir do meu íntimo e afetar tudo ao meu redor, numa solidariedade mútua, eu, a rocha, a atmosfera, a planta, o pássaro, o outro ser humano que passa próximo ao horizonte.

Penso na cigarra, que tem por meta de sua existência cantar até explodir, integrando-se ao meio ambiente. Um ato de amor de maior extensão, dentro de sua limitação existêncial. O canto é a prioridade, a comunhão, num sentimento desinteressado, atravessando o existir da vida material para alcançar o existir de sua energia, perpetuada naquele momento e ultrapassando todas as suas possibilidades.

Seria o canto o espírito da cigarra?

Há a troca da integridade física de uma existência medíocre por algo que está além, uma possibilidade que está além e que a torna onipresente e participativa. Feliz....

Sinto-me cigarra!

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Citando Caetano!


Será que nunca faremos
Senão confirmar
A incompetência
Da América católica
Que sempre precisará
De ridículos tiranos
trecho da música "Podres Poderes", de Caetano Veloso

Os anos 80 e nossa modernidade tardia!

Se o final dos anos 60 e o início dos anos 70 foram para boa parte do hemisfério norte a ruptura com os padrões de comportamento estabelecidos, isso chega ao Brasil mais tarde.
Enquanto na França o maio de 68 discutia o sistema educacional, com revolta dos estudantes em todo o país, culminando na marcha sob Paris, e os Estados Unidos assistiam ao Woodstock e à poesia coloquial de Bob Dylan, ao Flower Power e aos Panteras Negras, o Brasil sofria com regime de exceção democrática implantado com o Golpe Militar de 64.
Aqueles foram anos difíceis para o país. E o Ato Institucional nº 5 foi o golpe de misericórdia na liberdade de expressão. Se o mundo europeu e norte americano discutia o coletivo e a liberdade de ser individual, os brazucas foram amordaçados. Discutíamos a necessidade de justiça e de um mínimo de liberdade democrática e cidadã. Mas nunca discutíamos o indivíduo. Sequer havia espaço. Não era oportuno. Outra era a luta.
Tardiamente, vimos os anos 80 representarem aqui essa modernidade. A anistia política, as “Diretas Já” e todo um movimento de estética de massa marcaram para nós o início da discussão do indivíduo e suas liberdades e possibilidades. Tudo isso sob a ameaça arrasadora do HIV. O livro “Entradas e Bandeiras”, do hoje Deputado Fernando Gabeira, à época militante político recém-anistiado, já anunciava que as esquerdas brasileiras eram fascistas em relação à liberdade do indivíduo. Não tinham teses sobre essas questões. Estacionados na luta armada eles não viam o novo, embora o novo já tivesse vindo. O PCdoB ainda entronizava a Albânia como modelo comunista (um país que proibia, em sua constituição, que o cidadão possuísse animais de estimação - só para se ter um exemplo). E só para se ter uma referência atual, Tirana era a capital da Albânia (procure no Google notícias sobre a cidade e se depare com o caos).
Índios, padres, bichas, negros, mulheres e adolescentes - pra citar Caetano - não se enquandravam no perfil do exemplar cidadão proletariado, a quem as questões individuais eram secundárias, como que saídos de uma produção em série, bem medíocre. Neles os sonhos e desejos só cabiam ao coletivo.

Foi nos 80 que tudo começou. Dessa época, e representante desse movimento, “Narciso”, composição do Cazuza ainda no Barão Vermelho, mostra de forma brilhante essa inquietação.

Narciso (Cazuza)

Você que se cuide
E pare de me dar respostas prontas
Que você tem problemas, eu sei
São coisas da idade
São coisas da idade
Por isso é que você me imita
Desliga a razão da tomada
Desfila por toda cidade
Antecipando o fim

Quem você quer não diz nada
Vara a madrugada
Procurando por mim
Eu tenho tudo o que você precisa
E mais um pouco
Nós somos iguais
Na alma e no corpo

Você que se cuide
E pare de sair pela tangente
As drogas e os assuntos acabam sempre
Nesse frente a frente

Agora me enfrente
Como uma imagem no espelho
Nenhum bicho ou planta
Pode ousar assim

A verdade nua em pêlo:
Todo humano é santo
E pode amar, sim
E pode amar, sim

Eu tenho tudo o que você precisa
E mais um pouco
Nós somos iguais
Na alma e no corpo

terça-feira, 21 de julho de 2009

Dr. Calligaris



Desde criança o nome Caligari povoa meu imaginário. Lembro-me de assistir ao filme “O Gabinete do Dr. Caligari”, ficção de terror de 1919 (Alemanha/ Direção de Robert Wiene), uma das maiores obras do expressionismo alemão e me sentir fascinado. Luz e sombras e ângulos inusitados criavam um clima denso e misterioso, inesquecível aos olhos e à mente de uma criança. Mais tarde, nos anos 80, “O Gabinete do Dr. Caligari” voltou a ser muito comentado entre os cinéfilos de plantão.
Mas 2009 me trouxe, entre tantos outras novidades, um novo Caligari. Agora em sua forma italiana, Calligaris. Contardo Calligaris, psicanalista, psicoterapeuta e ensaísta, italiano de nascimento, formado na Suíça e na França e radicado no Brasil há 20 anos.
Tudo começou com o Café Filosófico (TV Cultura, domingo, 22h), onde ele é um dos palestrantes. Me intrigava sua forma de tratar temas extremante complexos e nada coloquiais. Psicanalista, abordava filosofia, sociologia e outros bichos de casco de uma maneira profunda, sedutora e simples. Sem ser medíocre e sem incorrer em auto-ajuda babaca.
O segundo passo foi saber que ele era o autor da peça “O Homem de Tarja Preta” (em cartaz em São Paulo até 31 de julho). A história se passa em uma única noite, onde um homem casado, pai de dois filhos, sofrendo de insônia, navega pela internet, em salas de bate papo, revelando seus próprios sonhos de infância, fantasias sexuais, e o sentido e valor que atribui à vida, ao casamento e à paternidade.
Quem é esse intelectual tão diverso e genial? Em meio a essas perguntas e nos últimos dias que passei em São Paulo dei de cara em uma livraria com mais uma de suas facetas. A de romancista, com o livro “O Conto do Amor”. Comprei de imediato, sem sequer ler a orelha ou a contra-capa. No vôo de volta, devorei o romance de 124 páginas em menos de duas horas. Encantando e hipnotizado pelas palavras, fui grifando frases que gostava, como que para não esquecê-las, ou talvez por uma vontade enorme de torná-las verdade em minha existência. Ao final, e sem nenhuma intenção, as frases soltas e distantes formaram uma declaração de amor:
“Entrei em seu corpo e senti como se tivesse, enfim, chegado em casa.
Senti, mais do que nunca, aquela sensação de que eu tinha voltado para casa e que tudo era simples, até meu desejo.
Quanto estou com você tudo me parece claro e natural, simples e bonito. Agora, de fato eu não sou assim.
Sou complicado sem necessidade, pomposo, falsamente elegante e, sobretudo, atormentado. A Roma papal barroca, feita de desejos inconfessáveis, repetidos compulsivamente, culpados e por isso mesmo praticados até a náusea. A Roma de um poder que goza sem limites e com um falso pudor – que é a pior maneira de gozar.
Queria lhe dizer que eu venho de Roma e que você é a minha Florença (a alusão ao claro e natural, simples e bonito).”
Sem querer, Dr. Calligaris me fez declarar amor, dizendo talvez exatamente aquilo que queria dizer. E mais, me fez ter vontade de voltar a escrever.