segunda-feira, 8 de março de 2010

O Reencontro




A semana passou corrida! Estive tão envolvido nos afazeres diários, que me movimentei pela vida quase no automático. A obrigação de fazer era tão intensa que os pensamentos tinham que ser práticos, objetivos, sem espaço para a fantasia. A meta era resolver.
Me senti até um pouco vazio, engolido pela rotina. Foi então que bateu aquele sentimento “o quê que eu estou fazendo da minha vida?”, “será que tudo isso vale a pena?”.
Quando nos questionamos a respeito da essência da vida e da felicidade, passamos a percorrer um caminho difícil. Afinal não somos acostumados a questionar e a aprofundar o sentido de ser e existir. É um momento em que, para sermos verdadeiros, precisamos nos despir das máscaras e das conveniências.
Não interessa a opinião dos outros, a aprovação popular, o padrão de relacionamentos, a cotação do dólar, o cenário político, a novela das oito, blá blá blá blá blá blá blá blá blá. Nada disso conta. Vale o que sentimos ... E é aí que o bicho pega!
Nessas horas, caminhar e percorrer locais inusitados é saudável, pelo menos pra mim. Dá pra desviar a atenção dos fantasmas diários e pensar no mundo com outros olhos. Sempre obtenho bons resultados.
Lembro- me quando da morte do meu tio Waldemar. No dia de sua partida, me foi conferida a dura responsabilidade de transmitir a notícia à minha avó, mãe dele. Saí da clínica e peguei um táxi, sem destino. De repente, pedi que o carro parasse. Ao abri a porta do veículo, dei de cara com a casa em que ela, Dona Donata, e seus quatro filhos, Waldemar, Anna, Ivete e Waldir, um dia moraram. Dalí eles saíram para enfrentar a vida, sempre sob a observação serena e democrática de minha “vozinha”. Percebi que a vida e a morte são, como diz o Milton Nascimento, “dois lados da mesma viagem, o trem que chega é o mesmo trem da partida”. Encontrei então a melhor maneira de lhe dizer uma dura verdade: precisava ser simples, como a vida é. Ao chegar em sua residência, não tive sequer que falar. Apenas a olhei nos olhos, e ela entendeu tudo.
Repleto de perguntas e sem qualquer resposta, lá fui eu, a busca de um caminho pra vida, caminhar pela cidade. Voltei a um lugar que há muito não ia: a Alfaiataria Demasi, onde minhas fardas do Colégio Militar eram feitas. Embora sempre passasse por aquele caminho, não o percebia e nem parava naquele local há, pelo menos, vinte e um anos. Observando as fachadas das casas e o impacto sofrido pelo ambiente urbano, fruto do empobrecimento do centro, fui subitamente abordado por um jovem. - Ei, o senhor não é o Orlando, que trabalha pra cidade de Manaus? Respondi afirmativamente e ele começou a me fazer uma série de considerações sobre Manaus, o centro, as coisas que estavam erradas, aquelas que eram certas, etc&tal. Querendo encontrar respostas para mim mesmo, e não aos outros, agradeci suas observações e disse que pensaria no assunto.
Caminhei três passos e me veio um estalo. Espera aí! Tudo o que aquele jovem pleiteava eu estava lutando para conseguir! Ele foi tão gentil e eu, pensando nas minhas besteiras, o deixei sem resposta! Quantas vezes ele teria chance de me encontrar de novo, ou de encontrar com alguém que, de alguma forma, pode exercer um poder de influência mais efetivo para a mudança do estado das coisas?
Voltei no caminho para dar uma satisfação real a ele, lhe explicar os projetos em andamento, suas filosofias, dificuldades de implantação ... E pra dizer que ele estava certo em grande parte de suas reivindicações.
Procurei-o em todos os locais: na Costa Azevedo, na direção da 10 de julho, na direção da Praça da Matriz, na própria José Clemente, na direção da Eduardo Ribeiro, enfim... mas não consegui encontrá-lo. E como? Havia menos de trinta segundos que ele falara comigo? Sumir ele não poderia! E ele tinha um tipo diferente, chamativo, o cabelo meio avermelhado... Não dava pra se confundir na multidão.
Percebi, emocionado, que minha resposta existencial tinha sido encontrada! Independente daquele jovem existir realmente, ou não, ele era eu, que há vinte e um anos atrás diariamente trilhava aquela calçada. Com as mesmas idéias, sonhos, paixões...
Percebi que eu estava certo em minhas decisões de vida, lutando por coisas nas quais sempre acreditei. Mais velho, prudente e concentrado, menos empolgado e dispersivo. E o melhor: consciente que a luta não se vence em dia, mas numa vida. Voltei para casa em paz!

A Simbologia do Amor



No princípio, só existem os poemas, os filmes, as canções e a lua cheia. Nada além é capaz de nos fazer senti-lo. Os versos, as imagens e as melodias nos transportam para um mundo novo, que parece só existir em sonhos, temperados pelo brilho da lua. Chegamos a ter saudade daquilo que não vivemos. Perseguimos uma utopia que parece nunca estará ao nosso alcance.
O tempo faz a roda girar. Conhecemos pessoas, vivemos, experimentamos, tentamos, mas ele não chegou. Uma vez - nos lembramos - parecia ser ele. Mas o tempo, grande mestre e companheiro, nos revelou ser apenas um fogo de palha. Muitos de nós desacreditamos que ele exista. Passamos a considerá-lo apenas sensual, genital, e pronto. Tornamo-nos práticos. Ele só existe assim: não era nada daquilo que diziam os livros, o cinema e a música.
Alguns passam até a evitá-lo: “- Esse negócio não existe não!” É coisa de doido, fantasia de mulheres românticas, frescura de mariquinhas. Não passa de uma justificativa à união e à procriação. Ou então uma conspiração contra a liberdade ao prazer carnal. Dizer “eu te amo” é bobagem, afirmação leviana para uma forma inventada de controle social.
Até que um dia, estejamos preparados, à sua procura, ou não, ele bate à porta! Sim, ele mesmo, em pessoa, ao vivo e a cores: o Amor. Tomamos até um susto. “-Mas ele não existe! E eu nem o chamei ou convidei! Como pode ser?” Não foi assim que planejamos: temos um tipo e um momento ideais, que em geral nunca correspondem. Duvidamos, negamos, mas caboco, pode confirmar: é ele. Ficamos então retraídos, estratégicos, estudando terreno, querendo saber como é que funciona. Será que não dava pra vir com manual de instruções? E numa progressão geométrica de ordem inversa, quanto mais o tememos, mais nos envolvemos. PQP, o negócio vai pegando. Tentamos não pensar a respeito, não dar muita bola. Nos damos até ao desfrute de ficar com outras pessoas, pra ver se é isso mesmo.
Fazemos de tudo para desmenti-lo, mas a grande prova é que as canções, sim aquele velho símbolo, passam a ter sentido. Não são mais uma utopia. Relaxamos e, como não há, graças a Deus, outro jeito, gozamos. E muitas, incontáveis vezes. Basta um telefonema, um sorriso, um roçar de pele. Ficamos assim um tempo, com os pés suspensos do chão e atestamos, até os mais hereges: o desgraçado existe!
Mas toda grande conquista sempre enfrenta desafios e é colocada, quase que todo santo dia, à prova. É um momento perigoso e decisivo. Se nos acomodamos, crentes de dominá-lo, a vaca pode ir pro brejo. E como vai. O comodismo é traduzido no gesto de não compartilhar, não cuidar, não renovar. Passamos a nos perdoar pequenas mentiras, a ter mais sono que o normal, a ir ao banheiro de porta aberta. Chega o dia em que perdemos o respeito! E quando agimos assim, ele faz as malas e vai embora. Resumo da ópera: você uma flor sem espinho e eu um espinho sem flor. Sobram apenas os retratos, este um novo símbolo, e as canções, que de utopia, ganham duas novas definições: passado e lembrança. Vai embora em termos, porque ainda ficamos impregnados com sua essência.
É, camaradas, e quem nunca passou por isso, tenha o máximo de cuidado: há de passar. Prefira sempre as canções e os pés fora do chão aos retratos e canções. Estes últimos são muito tristes e nos deixam um terrível sabor de derrota. Não são definitivos, porque podemos, com sorte, voltar a amar de novo alguém novo. Mas dói, vocês não sabem, ou talvez saibam, o quanto!
Estou falando assim porque sem Amor nada existe. O Amor é um troço absoluto. Ele constrói tudo. Casas, cidades, nações. E quer saber de uma outra coisa: tô falando nisso porque eu AMO, e pronto! Ah, essa maldita lua cheia lá fora...

domingo, 30 de agosto de 2009

Retratos e Canções II



O medo de amar é o medo de ser livre para o que der e vier, livre para sempre estar onde o justo estiver.
O medo de amar é medo de ter de todo momento escolher, com acerto e precisão, a melhor direção.
...
O medo de amar é não arriscar, esperando que façam por nós, o que é nosso dever - recusar o poder!
...
Essa foi o Edinaldo (Gen) que me ensinou a gostar!

Retratos e Canções I. Ou coisas que precisavam ser ditas e devem ser repetidas!



  • A paixão é que nem cobra de vidro, que também pode quebrar.
  • Quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração? E quem irá dizer que não existe razão?

  • Porque se chamavam homens, também se chamavam sonhos, E sonhos não envelhecem.

  • Sabe lá o que é não ter e ter que ter pra dar?

  • Se me faltares nem por isso eu morro. Se é pra morrer, quero morrer contigo!

  • E não há lógica que faça desandar o que o acaso decidir.

  • Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é.

sábado, 29 de agosto de 2009

Persona




Sempre me revolto quando alguém me considera óbvio ou previsível. Quando, por exemplo, chego a um lugar demonstrando alegria e, invariavelmente, surge alguém, com a profundidade de um pires de café, e pergunta: “Paquera nova? Quem é?”. Ou então quando estou abatido, seja lá qual for a razão, e aquele imbecil de plantão grita bem alto: “A farra foi boa, heim!?”.Meus motivos à felicidade ou à tristeza são tão diversos e pessoais, que nem eu mesmo sei, vez por outra, a razão desse ou daquele determinado estado de ânimo. E a lógica das situações não é matemática. Há dias em que minha satisfação é contida, intimista. Há outros em que minha melancolia surge dissimulada, falastrona.
Mas há pessoas que pretendem ter o poder da onisciência. Imagine-se narrando um fato a alguém. Contando os detalhes importantes, e qual foi o seu comportamento frente à situação. Agora se descubra sendo interrompido por uma terceira pessoa, bradando em alto e bom som: “Você? Reagindo dessa maneira? Duvi-d-o-dó! Conheço você. Aposto que você fez....” E se você retruca, para explicar sua atitude, o infeliz teima e se reveste de uma intensidade ainda maior, inclusive no volume da voz, para provar a você o que você fez. Sim, porque melhor que ninguém, ele sabe de tudo, lhe conhece como a palma da sua mão. Ahhh, pros diabos com essa gente...Tenho quase 45 anos e nem mesmo sei se me conheço bem. Como pode então um alguém, um qualquer, ou muitas vezes um ninguém, querer me conhecer? Ora, nem sempre me repito. Gosto de surpreender a mim mesmo.
Não violão, não vem não. Tenho meus dias de berimbau. E tenho meus dias de piano de calda. Tenho até, não raro, meus dias de alaúde com gaita. E eles não estão marcados na folhinha, como datas fixas no calendário da existência. E porque será que há sempre alguém que insiste em me adivinhar, jurando me conhecer? Isso me reduz a um nada imutável: fui, sou e serei eternamente assim, porque assim julgam me conhecer. E eles dizem que me conhecem. Mas é certo que se projetam em mim, nas suas expectativas cristalizadas de quem sou.
Não, não suporto que me tratem como um clichê, um label, um tipinho óbvio, previsível, como uma palavra cruzada de mediano nível de dificuldade. Sou complexo. E pronto, ponto, seguido de várias interrogações. Mas quase todo mundo é assim: um universo em movimento, capaz de mudar, de aprender, de avançar e, inclusive, de retroceder. E me pergunto: será que conheço alguém? Eu tento, mas não estou bem certo se posso dizer que CONHEÇO. Nessas ocasiões, prefiro perguntar. E, o que normalmente é mais difícil ainda, ouvir o que meu interlocutor tem a dizer. Então posso afirmar que, naquele momento, para aquela ocasião, eu o conheço. E os tergiversadores hão de dizer, empolados: “São apenas palavras; e o que está por traz de tudo isso?”. Bem, não conheço melhor maneira de expressão. Alguém conhece???
Tenho cautela, mas acredito no novo, na mudança. Não há nada melhor que um avanço para revigorar uma vida linear. Eu acredito.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

43 (ou Carta a um Amigo!)


Meu Amigo, em oito dias faço 43. Nem os 15, nem os 18, ou os 21, nem mesmo os 30, me fizeram sentir assim. De repente, a existência tornou-se diferente. Nenhum fato causador superveniente. Nada. Apenas a passagem dos 40. Pergunto-me o sentido da vida! Olha só que coisa esquisita!
Não o encontrei nas ambições por um novo apartamento. Ou por aquela sonhada viagem. Belas roupas? Que nada. Nem mesmo em um corpo helênico, irrepreensível e em um rosto jovem, isento das marcas do tempo. A idade me fez desejar ter menos. Ou muito mais. Não estou bem certo!
Mas onde estará o sentido da vida? Quando na porta de minha casa, o questionamento se torna ainda mais forte: Voltar ali pra que? Pra quem? Ou sair de lá pra que? Sabe Amigo, a idade tornou-se difícil! Ela me questiona fundo. Existir-mos. A que será que se destina?
Já não sinto satisfação nas rotinas corriqueiras da juventude. Parecem a mim um sentimento resolvido que, repetir-se, tornar-se-ia pura perda de tempo. Nem mesmo nas festas planejadas e propagadas. Elas se revelam inferiores, sempre, às minhas ambições. Nem nas reuniões de tantos que não sei sequer quem são, e que pouco têm a dizer. Ou nas novidades que soam igual às velhas. Nem mesmo o álcool traz qualquer satisfação. Antigamente, as conquistas e as aventuras sexuais me estimulavam. Hoje, as aventuras me parecem muito rápidas para construir a intimidade, que não se concretiza em um único dia.
Vivi e vivo intensamente cada segundo de cada dia. Uma existência plena, bem vivida. E como “a quem muito foi dado, muito será pedido”, a vida me pede que dela eu descubra o sentido. Essa pergunta me perturba. E vem a solidão da procura, que a ninguém é defeso compartilhar. Carrego essa cruz sozinho. Está na jurisdição da minha vida e é minha exclusiva responsabilidade. Há também a dor, essa velha conhecida.
Incorporei, com a idade, certos significados ao vocabulário presente da vida presente. Nem todos são vernáculos sociáveis ou agradáveis. Um deles é a impotência diante de certas situações. Por mais que eu queira, não as consigo mudar. Também passei a conhecer o significado da espera. E ela pode durar uma vida! Há aquela palavra, a “perda”, mas dessa nem eu, nem você, nem ninguém quer falar. Todos os dias aprendo novos termos. Coleciono significados. Mas as peças mais valiosas de minha coleção ainda são o “sonho” e a “possibilidade”.
Observo muito e tenho menos vontade de falar. Ainda me surpreendo, mesmo achando que isso nunca mais haveria de acontecer. Vejo as pessoas sendo convidadas a novos desafios, empreitadas e as vejo sem respostas, dizendo: “Eu tenho dúvidas! Eu tenho medo!” Minha impressão é que a vida e o tempo tomam a dúvida e o medo como suas respostas.
Mas, vez por outra, quando lhe olho nos olhos, reconheço alguém que também procura esse sentido. Que não se entregou à mesmice medíocre. Que não se satisfaz com pouco. Identifico aquele fogo arrebatador em sua retina. Nessas horas, sinto-me menos sozinho. O seu existir me acalanta. E descubro, ainda que meio embaçada, uma luz sobre aquilo que se revelaria o sentido das coisas. Que bom que não estou sozinho.
Talvez esteja aí da vida o sentido, e a fonte da juventude: não estacionar, não se projetar naquilo que todos querem, e que querem que sejamos. Ousar pensar e querer encontrar respostas. Não para tudo. Mas para aquilo que nos aflige. E saber que existem certos ”alguéns” que, como nós, insistem em sua procura na vida, sem se preocupar com que os outros vão esperar ou vão achar. Apenas seguindo seu coração. Obrigado por existir e por permitir que de sua existência eu compartilhe. Feliz Aniversário pra mim! E longa vida à nossa convivência!